Aftermarket automotivo: perguntas e respostas sobre o novo normal

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Os caminhos para a retomada do Aftermarket Automotivo — que, por sua vez, engloba todo o setor de distribuição, varejo, manutenção e reparação automotiva — passam por digitalização, tecnologia e várias outras respostas aos desafios impostos ao mercado no momento atual.

Para discutir essas soluções e as possibilidades para os negócios desse mercado, a Automec conversou com importantes nomes do setor na live “Os caminhos para a retomada do aftermarket automotivo”. Aliás, o vídeo completo está disponível em nosso site.

Para a live, trouxemos os especialistas abaixo:

  • Ana Paula Cassorla, diretora de Marketing da Pacaembu Autopeças;
  • Antônio Fiola, presidente do Sindirepa (Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios do Estado de São Paulo);
  • Marcelo Frias, Diretor Executivo da Rufato;
  • Francisco de La Torre, presidente do Sincopeças (Sindicato do Comércio Varejista de Peças e Acessórios para Veículos no Estado de São Paulo);

Todos responderam a uma série de perguntas a respeito de mercado, vendas, frota de veículos pesados e leves, varejo, tendências tecnológicas e outros temas que dão indicativo sobre as possibilidades para o aftermarket automotivo no novo normal. Por isso, confira as perguntas e respostas abaixo.

Perguntas e respostas ao aftermarket automotivo

Ana Paula Cassorla, diretora de Marketing da Pacaembu Autopeças

Pergunta: Você entende que com a diminuição do dinheiro no mercado, os frotistas de caminhões tendem a diminuir o interesse pelos contratos de manutenção com as montadoras via sua rede de concessionárias?

Ana Paula Cassorla: Acredito que o período pós-pandemia será bastante promissor para o mercado de reposição. Afinal, os frotistas necessitarão de bons serviços, disponibilidade de peças e preços competitivos.

As oficinas independentes certamente terão bons momentos e bastante serviço. Ao mesmo tempo, agilidade e a qualidade na prestação dos serviços de manutenção serão ainda mais importantes para o frotista e as oficinas independentes estarão preparadas para este momento.

Qual a porcentagem de redução de vendas de peças para as empresas de transporte de passageiro de São Paulo? O que a Pacaembu vai fazer com o fornecimento em relação a ferramenta digital?

Houve uma redução significativa das vendas para o segmento de transporte coletivo nos dois primeiros meses da crise: a queda foi em torno de 30% a 40% aproximadamente. Entretanto, com o retorno das atividades, flexibilização e término da quarentena que vem acontecendo, este segmento já está rodando com quase a totalidade da frota. Dessa forma, o consumo de peças também está crescendo.

Em relação à digitalização da venda, estamos nos preparando para oferecer ao mercado um modelo B2B que atenda plenamente nossos clientes, varejistas, frotistas e oficinas.

Ana afirmou que a linha leve voltará com mais rapidez, porém, a linha pesada (caminhões) não parou, pelo contrário, a utilização aumentou. Qual é o posicionamento sobre essa observação?

A distribuição de peças para veículos da linha leve já está praticamente nos mesmos níveis de vendas do período pré-pandemia. Assim, o mercado já voltou a consumir produtos para a manutenção dos veículos leves. Sem renovar a frota, os consumidores precisam dos seus carros com a manutenção em dia.

Os caminhões continuaram rodando com a crise. Segmentos como agricultura, pecuária, mineração entre outros praticamente não foram impactados. Porém, o segmento de transporte de passageiros, urbano, rodoviário e fretamento foi fortemente afetado e teve suas atividades praticamente paralisadas. 

Quais projetos estão sendo feitos para padronizar os dados de cadastro de peças? Quem está liderando e perspectiva para termos?

Atualmente temos algumas empresas atuando na frente de padronização das informações para cadastro de autopeças entre elas posso citar a Fraga e a TecDoc.

Leia também: Retomada do setor de aftermarket automotivo passa por digitalização

Existe uma pesquisa muito interessante que mostrou que o varejo no Brasil todo estava desabastecido, variando de estado para estado entre 20% a 30% de falta de autopeças. Muitas oficinas deixando de fazer a manutenção dos seus clientes por falta de peças. Ao meu ver essa é a função dos distribuidores. Como vocês respondem a isso? 

Desconheço esta pesquisa, por isso seria interessante entender que tipo de autopeças a pesquisa estava se referindo. Em relação às peças mecânicas, não acredito que possa haver faltas nesta proporção.

A Pacaembu trabalha com uma política de estocagem bem ampla em suas 30 filiais, com mais de 50 mil itens dos principais fabricantes de autopeças. Dessa forma, se minimiza eventuais faltas, fazendo com que seus clientes nunca parem de rodar por indisponibilidade de peças.

Temos informações que os frotistas urbanos utilizaram a prática conhecida, chamada de “canibalização” da frota. Ou seja, utilizando peças de veículos parados no pátio para a reparação dos mesmos. Com o retorno das atividades e o aumento da frota circulante, os distribuidores estarão com os estoques prontos para atender essa demanda?

Não tenho conhecimento para afirmar que houve esta prática, porém com certeza houve muita ociosidade na utilização da frota e consequente redução da necessidade de se fazer a manutenção nos veículos que apresentaram problemas neste período.

Em relação ao tópico vendas de peças automotivas em geral para linha leve (carros de passeios e comerciais) e pesados (Caminhões, ônibus, maquinas agrícolas e maquinas de construção). Como vocês estão enxergando o número de vendas em relação ao ano de 2019? Para 2020 acredito que teremos uma queda. Se isso positivo. Poderia estimar quantos % será essa redução?

Muito difícil dizer um número, entretanto acredito que 2020 terá uma redução de 15% a 20% com relação a 2019.

Antônio Fiola, presidente do Sindirepa

Qual será o impacto de veículos elétricos no setor de aftermarket automotivo?

A meu ver, o veículo elétrico ainda demora a chegar no Brasil de forma relevante, afinal temos oferta de energia limitada, não temos benefícios do governo na aquisição, as baterias ainda são muito caras. Além disso, temos o veículo a combustão a preços muito mais acessíveis.

Portanto, ainda precisamos de muitas adequações e não temos infraestrutura, lembrando ainda que entraremos em uma fase difícil pelos desembolsos do governo com a COVID-19.

Qual a importância dos novos empreendedores no pós-crise?

Acredito muito no empreendedor Brasileiro, principalmente no Aftermarket Automotivo. Afinal, ele geralmente é muito criativo e aplicado. Dessa maneira, tenho certeza que sairemos fortalecidos desse momento e, considerando as mudanças no consumidor (que em médio prazo irá voltar a se locomover com seu próprio carro e sozinho), teremos mais demanda.

Nosso principal legado será a parceria. Com isso, espero que o relacionamento entre as empresas deixe um pouco de lado a guerra de preços e que, portanto, possamos fortalecer as relações humanas, privilegiar a indústria brasileira e os antigos parceiros que estiveram ao nosso lado nesse momento tão difícil.

Marcelo Frias, Diretor Executivo da Rufato

Como está a preparação da logística para atender à demanda dos Clientes do Retira no Centro de Distribuição da Rufato devido a esta pandemia? Como está o atendimento?

Desde o primeiro dia em que voltamos a atender os Clientes do Retira, tomamos todas as precauções para proteger nossos funcionários e clientes através de monitoramento da temperatura na portaria e uso de máscara obrigatório. Além disso, estamos atendendo por etapas: o restante dos clientes permanece dentro do seu veículo até ser chamado, assim evitamos aglomerações.

Encontrei uma logística bem estruturada. Fizemos alterações na rotina interna, implementamos controles, alteramos os horários para carregamento e atendimento. Com a pandemia, também reforçamos procedimentos para proteção de motoristas, ajudantes e Clientes.

Com a desvalorização do Real frente ao dólar, em que grau a Rufato enxerga um reequilíbrio da participação de mercado entre as marcas nacionais e produtos importados?

A desvalorização do real frente ao dólar fez com que os preços dos fornecedores nacionais ficassem mais atrativos. Dessa forma, isso abriu mais possibilidades de compras locais. Com o recuo novamente do dólar, a diferença ainda é competitiva para importação.

Leia também: Como impulsionar o atendimento ao cliente sem aumentar os custos

Além das próprias lojas oficiais, com pick-up do varejo, a Rufato também atua em lojas oficiais dentro do Mercado Livre? Se sim, quais exemplos?

A estratégia de negócio da Rufato é oferecer aos nossos clientes que atendem o ML e outros marketplaces. Ao mesmo tempo, até mesmo aqueles que têm site próprio e dar ótimas condições a eles.

Por isso, entendemos que se vendermos na internet nós concorreríamos diretamente com nossos clientes. Logo, optamos em dar suporte a todos os nossos clientes, dando o melhor serviço e um bom prazo de entrega.

Existe uma pesquisa muito interessante que mostrou que o varejo no Brasil todo estava desabastecido, variando de estado para estado entre 20% a 30% de falta de autopeças. Muitas oficinas deixando de fazer a manutenção dos seus clientes por falta de peças. Ao meu ver essa é a função dos distribuidores. Como vocês respondem a isso?

Tanto antes quanto durante a pandemia estamos com estoque acima dos níveis do ano anterior justamente para evitar falta de peças aos clientes. Como estávamos preparando abertura de novo CD, não cancelamos nenhum pedido de compra e mantivemos as compras regularmente. 

Como está a estratégia e o planejamento para atender à demanda de Black Friday dos clientes mediante esta longa pandemia?

Acreditamos que a Black Friday vai acontecer meses antes da abertura total do comercio e, quem sabe, já com pandemia totalmente controlada no país pelas autoridades de saúde. Logo, acreditamos que será momento de grande demanda, igual ou superior às vendas do ano passado.

Dessa forma, já estamos nos preparando com estoques e melhorias de serviço para nossos clientes. Da mesma forma, já teremos o novo WMS nos nossos CDs e implantado o novo ERP.

O que vocês têm a dizer sobre a linha de reparação e funilaria automotiva?

É um segmento que cresce ano após ano, acima da média dos outros segmentos, com grande potencial para melhoria do nível de serviço para clientes finais. Além disso, possui oportunidades de agilizar os prazos de entrega nos serviços prestados e melhoria na margem dos preços.

Vejo que o controle de estoque é um dos problemas mais comuns no segmento de autopeças. Visto que a tendência é utilizar o estoque do distribuidor, como vocês acreditam que será essa conciliação? Será um desafio para a loja de autopeças pequena?

O tema de estoque é um problema antigo, principalmente por questões de fluxo de caixa e espaço de armazenamento nas oficinas. Os distribuidores têm um papel fundamental em suprir as autopeças, por isso ter as peças corretas na quantidade adequada é uma tarefa diária, visando acertar os níveis de estoque adequados para cada SKU comercializado. Por outro lado, outro ponto importante é que não basta termos a peça, temos que ter uma logística de entrega para atender o mais rápido possível em todo o Brasil. 

Leia também: Em 2030, 30% da frota brasileira será eletrificada, segundo estudo da consultoria Mckinsey

Quais são os legados pós pandemia que ficará no setor? Qual será o comportamento do novo consumidor?

Em primeiro lugar, um dos legados que ficará no setor de aftermarket automotivo é o uso maior da digitalização através do e-commerce. Isso aumentará o percentual de vendas on-line, tirando um percentual das vendas físicas. Dessa maneira, o comportamento do consumidor será comparar preços e prazos de entrega.  

Como a Rufato está se preparando para este novo normal, dentro do centro de distribuição de sua empresa, e quais são as estratégias para atender à demanda de distribuição?

Nos últimos meses, investimos bastante em sistemas, com a troca do ERP anterior para o ERP da Totvs. Ao mesmo tempo, temos também a implantação do WMS da Totvs integrado com ERP, com um novo sistema de força de vendas. Por fim, recentemente fechamos a implantação de um B2P para nossos clientes.

Por consequência, fechamos todo ciclo do pedido, desde o recebimento por parte do cliente até a entrega para o consumidor. No período da pandemia, aceleramos as implementações, além de inaugurar 4 centros de distribuição para aumentar nossa linha de produtos. Como resultado, teremos mais velocidade e flexibilidade para atender a uma nova demanda que está por vir após o fim da pandemia e anos seguintes.  

Francisco de La Torre, presidente do Sincopeças 

O Ebay tem papel crescente na comercialização de peças nos EUA. Como o Mercado Livre e correlatos têm desempenhado por aqui?

As plataformas de vendas eletrônicas têm apresentado crescimento vigoroso, na ordem de dois dígitos, nos últimos anos no Brasil. O comércio de produtos automotivos tem sido destaque ao longo desse período, sendo os acessórios o principal grupo de produtos.

Porém, a falta de um catálogo que permita a venda correta para as peças técnicas e uma garantia maior da origem das autopeças ofertadas são os grandes desafios do setor de aftermarket automotivo para a consolidação deste importante canal.

Muito tem sido feito para a superação desses obstáculos por parte das empresas de plataforma de comercialização. Por exemplo, vale destacar o financiamento para a construção de sites às lojas que quiserem estreitar seu relacionamento. Em relação à criação de um catálogo único, é um desafio que envolve todos os atores do segmento. 

Como funcionará essa aproximação das montadoras com o segmento de reposição?

Cabe às montadoras a sinalização dessa iniciativa, porém entendo que a primeira atitude é a disponibilização das informações técnicas para a boa reparação de seus veículos.

Qual é a situação atual de fornecimento de autopeças no Brasil? Na Argentina, muitos provedores suspendem a ativação de ventos ou limitam os volumes das ordens.

Aqui já estão faltando alguns produtos para a reposição dos estoques e, para estes, existe restrições nos pedidos. Dessa forma, nesses momentos, é importante considerar as relações construídas ao longo do tempo e, ao mesmo tempo, pode ser a oportunidade para mirar novas possibilidades para outras marcas e novos fornecedores. Afinal, essa situação passa e as relações ficam. 

Leia também: Opinião do visitante: Por que é importante conhecer a Automec Experience?

Os fabricantes de autopeças enfrentam uma situação financeira caótica há longa data. Não somente os que fornecem para montadoras ou sistemistas, mas também os que atuam no aftermarket automotivo. Os senhores têm algum exemplo de “Faturamento Antecipado” ou “Venda para Entrega Futura” praticado por tais fabricantes de autopeças, nesses tempos bicudos?

Não temos relatos dessas práticas, mas como você mesmo disse, os tempos são bicudos e a colaboração mútua é fundamental para a superação das dificuldades. Por isso, tudo deve ser posto na mesa de lado a lado para que os negócios possam continuar, afinal o cliente é importante, mas um bom fornecedor também é.

A suspensão dos contratos de trabalho, em vigor pela MP em vias de votação no Senado, foi amplamente utilizada pelos associados dos seus sindicatos? Representou, de fato, um alívio de caixa ou só faz retroagir mais ainda o consumo das famílias?

As MPs 927 e 936, que tratam das flexibilizações das relações capital e trabalho, foram fundamentais para a manutenção dos empregos e dar algum alívio momentâneo ao caixa das empresas. Por isso, foram amplamente utilizadas pelos varejistas de autopeças e amparados pelos sindicatos laborais, o que por sua vez trouxe segurança jurídica para todos.

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